A lenda do Uirapuru

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A lenda do Uirapuru para ler para as crianças. Existe um passarinho na mata cujo canto faz todos os outros calarem — e ele canta poucos minutos por ano.

A mata da beira do rio é o lugar mais barulhento do mundo, e quem mora lá nem percebe mais.

A mata da beira do rio é o lugar mais barulhento do mundo, e quem mora lá nem percebe mais. De manhã são os bem-te-vis. De tarde as cigarras, todas ao mesmo tempo. De noite as rãs, os grilos e uma coruja que pergunta sempre a mesma coisa e nunca recebe resposta.

Dalva morava na última casa antes da mata e conhecia todos aqueles barulhos de cor.

Dalva morava na última casa antes da mata e conhecia todos aqueles barulhos de cor. Sabia qual pássaro cantava antes da chuva e qual cantava depois. Sabia distinguir, no escuro, a rã pequena da rã grande. Mas havia um som que ela nunca tinha ouvido, e era justamente o que ela mais queria.

— Existe um passarinho — havia contado a bisavó dela — que canta poucos minutos por ano.

— Existe um passarinho — havia contado a bisavó dela — que canta poucos minutos por ano. Um passarinho pardo, pequeno, do tamanho de um punho fechado, nada bonito de se ver. E quando ele começa, a mata inteira se cala.

— A mata inteira? — Dalva tinha cinco anos quando perguntou. — Inteira. As cigarras param. Os bem-te-vis param. Até o vento…

— A mata inteira? — Dalva tinha cinco anos quando perguntou. — Inteira. As cigarras param. Os bem-te-vis param. Até o vento parece que espera. O nome dele é uirapuru, e quem escuta o canto dele não esquece mais, nem que viva cem anos.

Dalva passou a procurar.

Dalva passou a procurar. No primeiro ano procurou com os olhos, o que foi um erro: um passarinho pardo numa mata parda não se acha olhando. No segundo ano passou a procurar com os ouvidos, e isso mudou tudo — só que o que ela ouvia era sempre tudo junto, um barulho só.

No terceiro ano ela descobriu o jeito.

No terceiro ano ela descobriu o jeito. Em vez de escutar a mata, passou a escutar uma coisa por vez. Primeiro só as cigarras, até saber onde cada uma estava. Depois só os bem-te-vis. Depois só as folhas. Aprendeu a separar os barulhos como se desenrola um novelo.

E foi assim que ela entendeu que a mata nunca ficava em silêncio.

E foi assim que ela entendeu que a mata nunca ficava em silêncio. Nem de madrugada, nem no calor do meio-dia, nem na chuva. Sempre sobrava alguma coisa fazendo som. Então, se algum dia tudo se calasse ao mesmo tempo, ela ia perceber na hora — mesmo dormindo.

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Fonte do texto: Lenda do folclore brasileiro, em domínio público. O texto foi escrito de novo para o Marytale — não é a reimpressão de nenhuma versão publicada.

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