Folclore é o conjunto do que um povo transmite de boca em boca, sem autor e sem livro: lendas, festas, danças, brincadeiras, cantigas, adivinhas, ditados e crendices. A palavra vem do inglês *folk-lore*, «saber do povo», criada em 1846.
No Brasil ele tem uma característica própria: nasceu do encontro de três heranças — indígena, africana e portuguesa — e quase nenhum personagem pertence a uma só delas.
Os personagens do folclore brasileiro
**Curupira.** Menino de cabelos vermelhos e pés virados para trás, protetor da mata. Quem caça mais do que precisa se perde seguindo as pegadas ao contrário. É de origem indígena e um dos registros mais antigos: aparece numa carta jesuítica de 1560.
**Saci-Pererê.** Negrinho de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo, que faz travessuras e vira redemoinho. Quem lhe tira o gorro consegue um pedido. Herança africana somada a elementos indígenas, mais forte no Sul e no Sudeste.
**Boitatá.** Cobra de fogo que protege os campos de quem põe fogo no mato. O nome vem do tupi *mboi-tatá*, «cobra de fogo».
**Iara.** Mãe-d'água de cabelos longos que atrai homens para o fundo do rio com o canto. Nasce da sereia europeia misturada com espíritos das águas tupis.
**Uirapuru.** Passarinho cujo canto faz toda a mata silenciar; quem o ouvir tem sorte. Existe de verdade, e o canto também.
**Mula sem cabeça.** Mulher amaldiçoada que vira mula soltando fogo pelas ventas, nas noites de quinta para sexta. Origem portuguesa, de fundo religioso.
**Lobisomem.** O sétimo filho homem vira lobo nas noites de lua cheia. Chegou de Portugal e se espalhou pelo país inteiro.
**Caipora**, **Boto cor-de-rosa**, **Negrinho do Pastoreio**, **Cuca** e **Mapinguari** completam a lista mais conhecida, cada um mais forte em uma região.
Lendas que explicam a origem das coisas
Boa parte do folclore brasileiro não trata de monstros e sim de origens. A lenda do milho, a lenda da mandioca, a lenda da erva-mate, a lenda da vitória-régia e a lenda do guaraná explicam de onde veio uma planta, e quase todas partem de uma perda: alguém morre e da terra nasce o que alimenta.
Essas lendas são indígenas na origem e mudam de povo para povo — a vitória-régia é contada de um jeito entre os tupis e de outro no Amazonas. Não existe versão oficial, e isso não é falha de registro: é o que a palavra folclore significa.
Festas, danças e brincadeiras
**Festa junina** — quadrilha, fogueira, milho, bandeirinhas. Herança portuguesa das festas de São João, adaptada ao calendário e à colheita do milho no Brasil.
**Bumba meu boi** — auto popular em que o boi morre e ressuscita; forte no Maranhão e no Norte, com elementos das três heranças.
**Folia de Reis**, **maracatu**, **frevo**, **congada**, **capoeira** — cada uma com região, música e vestimenta próprias.
**Brincadeiras** — amarelinha, pião, peteca, cabra-cega, passa-anel. Muitas atravessaram séculos quase sem mudar.
**Cantigas de roda** — «Ciranda, cirandinha», «Atirei o pau no gato», «A canoa virou». São o folclore que a criança aprende primeiro, sem que ninguém a ensine de propósito.
Quando é o Dia do Folclore
**22 de agosto.** A data foi escolhida porque em 22 de agosto de 1846 o inglês William John Thoms usou pela primeira vez a palavra *folk-lore*. No Brasil virou lei em 1965.
É por isso que agosto é o mês em que as escolas pedem trabalho sobre folclore — e por isso esta página costuma ser procurada nessa época.
Folclore, lenda, mito e conto: qual é a diferença
**Folclore** é o conjunto: tudo o que um povo guarda sem ter escrito, incluindo lendas, festas, danças e ditados.
**Lenda** é uma das partes: narrativa ligada a um lugar ou a um fato tido como real, contada como se tivesse acontecido.
**Mito** explica a origem do mundo e dos deuses e pertence a um sistema de crenças.
**Conto de fadas** não se prende a lugar nenhum e não pretende ser verdade.
Ou seja: toda lenda brasileira é folclore, mas nem todo folclore é lenda — a quadrilha e a amarelinha também são.
Por que vale contar essas histórias em casa
Porque elas têm endereço. Depois de ouvir o Curupira, a mata deixa de ser cenário e passa a ter regra: não se leva mais do que se precisa. Depois do Boitatá, o fogo no campo ganha um dono que não gosta.
E porque quase todas terminam com uma pergunta em vez de uma lição. «Isso aconteceu mesmo?» aparece sozinha, e responder honestamente — o rio existe, a moça no fundo não — ensina uma distinção que serve muito além do folclore.
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