A lenda do Boitatá

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A lenda do Boitatá para ler para as crianças. Uma cobra de fogo atravessa o campo seco, e ela não vem queimar: vem por causa de quem queimou.

Aquele ano a seca foi comprida.

Aquele ano a seca foi comprida. O capim do campo ficou da cor de palha, o riacho virou um fio, e de tarde o chão esquentava tanto que os cachorros andavam pela sombra das cercas. Todo mundo esperava a chuva olhando para o mesmo pedaço de céu.

Tião tinha oito anos e dormia na varanda, porque dentro de casa era quente.

Tião tinha oito anos e dormia na varanda, porque dentro de casa era quente. Foi ali, numa madrugada, que ele viu pela primeira vez: bem longe, na parte baixa do campo, uma luz comprida se mexendo. Não era lanterna, porque lanterna anda em linha reta. Aquilo ondulava.

— Vô — chamou ele baixinho.

— Vô — chamou ele baixinho. — Tem fogo no campo. O avô saiu, olhou um tempo e não pareceu assustado. — Não é fogo — disse. — É o Boitatá.

O avô se sentou no degrau e contou.

O avô se sentou no degrau e contou. Que o Boitatá é uma cobra grande de fogo, que mora onde a água era funda antes de tudo secar. Que os olhos dele são duas brasas. E que ele não anda por aí queimando: ele aparece onde alguém queimou.

— Ele guarda o campo — disse o avô.

— Ele guarda o campo — disse o avô. — Quem põe fogo no mato sem cuidado, o Boitatá encontra. Não machuca ninguém. Só atravessa a noite na frente da pessoa, uma vez, bem perto — e depois disso ninguém mais bota fogo no mato sem pensar duas vezes.

Tião ficou acordado até clarear.

Tião ficou acordado até clarear. A luz comprida foi descendo pela parte baixa, parou junto ao carrascal, ficou ali um tempo e depois sumiu, do jeito que uma brasa some quando alguém joga terra em cima.

De manhã ele foi ver. Na parte baixa não havia nada queimado — nem capim preto, nem cheiro de fumaça. Só o rastro: uma faixa…

De manhã ele foi ver. Na parte baixa não havia nada queimado — nem capim preto, nem cheiro de fumaça. Só o rastro: uma faixa comprida de terra, larga como duas mãos abertas, onde o capim seco estava deitado para os dois lados, como se uma coisa muito pesada tivesse passado por ali.

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Fonte do texto: Lenda do folclore brasileiro, em domínio público. O texto foi escrito de novo para o Marytale — não é a reimpressão de nenhuma versão publicada.

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