Trava-línguas difíceis para quebrar a língua

11 trava-línguas

Estes não saem na primeira nem na quinta, e esse é o trato. Trava-língua difícil não é o que tem palavra esquisita: é o que coloca dois sons quase iguais tão perto que a boca não consegue trocar de posição no meio.

Funcionam bem a partir dos oito anos, quando a criança já não fica frustrada de errar e acha graça de se ouvir falando bobagem. Embaixo de cada um está escrito onde está a armadilha — vale ler antes de tentar, porque sabendo onde se cai, cai-se menos.

  1. Um ninho de mafagafos tinha sete mafagafinhos. Quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será.

    O que trava: Uma palavra inventada que muda de forma quatro vezes. Não tem som difícil: o que trava é a memória, porque «mafagafo», «mafagafinho» e «desmafagafizar» se embaralham.folclore

  2. O tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

    O que trava: A mesma palavra doze vezes, e nunca com a mesma função. Aqui não erra a língua — erra a cabeça, tentando entender a frase enquanto fala.folclore

  3. O doce perguntou pro doce qual é o doce mais doce que o doce de batata-doce. O doce respondeu pro doce que o doce mais doce que o doce de batata-doce é o doce de batata-doce.

    O que trava: Irmão do anterior, com «doce» quinze vezes. O laço final é o que derruba todo mundo: a resposta repete a pergunta inteira.folclore

  4. Quem a paca cara compra, paca cara pagará. Se a paca cara pagar, paca cara pagará quem a paca cara comprar.

    O que trava: «Paca», «cara», «compra», «pagar»: quatro palavras de duas sílabas com as mesmas consoantes trocadas de lugar. Acelerou, virou tudo a mesma palavra.folclore

  5. Não confunda ornitorrinco com otorrinolaringologista. Ornitorrinco é bicho e otorrinolaringologista é médico.

    O que trava: Duas palavras compridas que começam quase igual e não têm nada a ver. A graça é entender a frase; a dificuldade é dizer as duas na mesma respiração.folclore

  6. O pinto pia, a pia pinga. Pinga a pia, pia o pinto. Quanto mais o pinto pia, mais a pia pinga.

    O que trava: Quatro palavras de quatro letras que trocam de posição sem avisar. Este é o teste da diferença entre «pi» e «pin» — e quase ninguém passa na primeira.folclore

  7. Como pouco coco como, pouco coco compro.

    O que trava: Tudo «co». Difícil não é falar, é entender enquanto fala — e quem pensa no sentido, erra.folclore

  8. A vaca malhada foi molhada por outra vaca molhada e malhada. E quando a vaca malhada e molhada molhou a outra vaca malhada, as duas ficaram malhadas e molhadas.

    O que trava: «Malhada» e «molhada» diferem numa vogal só, e a frase troca as duas oito vezes. O ouvido desiste antes da boca.folclore

  9. Três pratos de trigo para três tigres tristes. Três tigres tristes para três pratos de trigo.

    O que trava: «Tr» oito vezes com vogal diferente em cada uma. A boca pega o ritmo de «tri» e se recusa a dizer «tra».folclore

  10. Sabia que o sabiá sabia assobiar? O sabiá sabia. Sabia?

    O que trava: «Sabia», «sabiá» e «assobiar» são quase a mesma sequência de sons, mudando só onde cai a força da voz. Quatro linhas e a última é uma pergunta de verdade.folclore

  11. A Iaiá trouxe o saiote da Ioiô e o Ioiô trouxe o saiote da Iaiá. Se a Iaiá não trouxesse o saiote do Ioiô, o Ioiô não traria o saiote da Iaiá.

    O que trava: Só vogais e o «i» consoante, que é o som mais escorregadio do português. «Iaiá» e «Ioiô» são antigos apelidos de irmãos — o trava-língua é do tempo das fazendas.folclore

Como treinar

Com os difíceis o que funciona é partir em pedaços. Fala-se só o primeiro trecho até sair limpo três vezes, depois acrescenta-se o segundo, e assim por diante. Tentar a frase inteira desde o começo não ensina nada: erra-se sempre no mesmo lugar e acaba cansando. A segunda coisa que ajuda é exagerar a boca de um jeito ridículo, abrindo muito nos «a» e adiantando os lábios nos «o» — parece bobagem e é o que de fato separa os dois sons que se confundem. E se algum entalar por semanas, deixe e volte daqui a um mês: estes se aprendem deixando descansar, não insistindo.

Mais trava-línguas

Trava-línguas do folclore brasileiro, anônimos e em domínio público. A seleção, a ordem e as notas sobre o que trava em cada um são da Marytale. Fonte: Sílvio Romero, 1883.